E que não sejam culpados os inocentes…

A Seleção Brasileira sub-20 foi eliminada precocemente do Sul-Americano e o São Paulo mais uma vez decepcionou na Copa SP. Se vão escolher um culpado, é necessário ter cuidado


Duas eliminações mexeram com os brios dos torcedores que gostam de acompanhar o futebol de base de alguma forma, mas mexeu muito mais com aqueles que acompanham esporadicamente, quando há alguma mídia televisiva ou coisa do tipo.

O Brasil passou vergonha na Argentina. Foi eliminado ainda na primeira fase e com uma derrota vexatória para uma Seleção bem mais fraca, que no caso é o Peru.

Já o São Paulo mais uma vez decepcionou na Copinha, mas não passou vergonha. Foi eliminado nas quartas-de-final, pelo Goiás, que montou uma equipe sub-20 pronta para brigar pelo título da categoria.

O natural de todo torcedor é buscar um culpado e claro, quebra-se a corda do lado mais frágil, aquele que estava em campo e que pôde ser visto por todos: os jogadores. Mas será que a culpa é deles mesmo? Seriam eles os maiores causadores dessas eliminações?

Não, o Brasil não conseguiu fazer um jogo que pudesse ser considerado ao menos razoável. As declarações do atacante Marcos Junio, comentando sobre a falta de comprometimento dos seus companheiros, com certeza não ajudaram nada e aumentaram a carga de culpa dos que estavam em campo.

Só que o problema é muito mais profundo. A grande culpada pelo vexame que não acontecia desde 1971 pode ser resumida em três letras: CBF.

O trabalho porco feito pela Confederação Brasileira de Futebol, que parece ter esquecido suas categorias de base, só poderia resultar em fracasso.

Desde julho sem um coordenador e usando Emerson Ávila, um técnico ainda jovem, como tapa-buraco de três categorias diferentes, quais poderiam ser as expectativas? As categorias de base foram simplesmente esquecidas.

Mano Menezes e Andrés Sanchez deram bastante importância para isso e fizeram um trabalho bom junto com Ney Franco.

Os resultados não foram os títulos do Sul-Americano sub-20, sub-17 e sub-15 e muito menos o Mundial sub-20 de 2011. O resultado foi contar com uma Seleção principal recheada de novos nomes, que fizeram parte do projeto: Oscar, Lucas, Neymar e Alex Sandro, por exemplo. Outros também chegaram a vestir a amarelinha pelo sub-20 e pelo principal.

Mas todos os três citados foram embora das gerências da CBF de uma hora para outra e com isso tudo o que foi feito se perdeu. Ruim para os torcedores, pior para os jogadores das gerações que vão passar por esse descaso.

Para voltar a ser uma potência das categorias de base, é necessário aplicar um trabalho que agregue. Que una as categorias de base com a Seleção principal. José Maria Marin e Luis Felipe Scolari não parecem ter essa vontade. Situação complicada.

No São Paulo o problema parece ser ainda maior. A sede de Juvenal Juvêncio por melhores resultados e os conflitos de interesse na gestão da base causam diversas situações inexplicáveis e algumas até suspeitas.

O trabalho começou com René Simões, lá no começo de 2012, após a eliminação vergonhosa ainda na primeira fase da Copinha.

O projeto com René acabou em novembro de 2012, após o tricolor contratar nada mais do que 14 jogadores novos para suas categorias de base de uma vez só. Desses 14, oito foram relacionados para a Copa São Paulo.

Tudo bem. Isso ainda não é tão ruim. Mesmo que a qualidade de alguns dos recém-chegados seja discutível.

Mas e o despreparo? E a descontinuidade de um trabalho que já durava algum tempo? Foi preciso ser refeito tudo desde o princípio com dois meses para o começo da competição e com uma equipe que começava a se reconhecer.

Por isso o São Paulo não encantou na Copinha, mas exerceu o estilo de futebol que credenciou o time em anos anteriores. Com jogadores muito técnicos como Allan, João Felipe, Rodrigo Caio, Henrique Miranda e Lucas Farias, o toque de bola tornou-se um diferencial, mas não foi empolgante. Resultado do presidente que pensa base como um trabalho pontual e que deve gerar títulos. Só um título, na verdade, o da Copa SP.

Fora essa obsessão do presidente, que mais atrapalha do que ajuda, me preocupa muito uma outra situação, que aconteceu no jogo da eliminação. Penso, até agora, que o que houve nesse jogo não faz sentido algum.

Por que Sérgio Baresi colocou o meio-campista Mirray em campo?

Considerado um grande talento de Cotia e com uma multa rescisória de valores astronômicos, o jovem sofreu uma grave lesão no começo de 2011 e desde então não engrenou.

Baresi não confiou nele para jogar o segundo turno e as fases finais do Paulista da categoria. Não confiou nas terríveis campanhas do sub-20 nos torneios nacionais. Não confiou sequer para jogar os outros jogos da própria Copa São Paulo.

Por que ele confiou no jogo mais difícil e visado do torneio? Por que confiou para bater o pênalti decisivo, depois de o jogador ter ido mal em campo?

Na minha cabeça não faz sentido. Ele sabia que o jovem não estava preparado para jogar e até por isso não confiou nele em outros momentos. Momentos nos quais o São Paulo precisou, inclusive, de um jogador com as características do Mirray.

Se Mirray tivesse feito aquele gol sem goleiro no segundo tempo, o São Paulo passaria de fase e não existiria essa parte do post. Mas é ele quem tem que ser cobrado? É ele quem deve ser crucificado pela eliminação?

Tenho a impressão, mas espero que eu esteja errado, de que Baresi fez isso justamente para tentar queimar o jogador com a torcida, em uma busca por promover ou depreciar alguém ou algo.

Aconteceu com outros atletas recentemente e até no passado. Não é novidade no tricolor. Romário foi chamado de preguiçoso pelo técnico Sérgio Baresi, embora o atacante tenha reclamado publicamente da falta de oportunidades no time. O jovem pediu para ser dispensado do São Paulo.

O meia-atacante Diego Souza, hoje no Palmeiras e vestindo a camisa 10 alviverde na Copa São Paulo, foi outra vitima de um esquema parecido. Depois de ser artilheiro do time sub-15 e fazer um bom ano de transição para o sub-17, misteriosamente parou de ser escalado e começou a entrar apenas em jogos “fogueira”. Também pediu dispensa do time e acabou indo, magoado, para o Palmeiras.

O empréstimo de Mirray foi cogitado com a chegada de novos jogadores para o time sub-20. Não aconteceu. Agora que a torcida não está a favor dele, o que será que farão com ele?

O grande culpado da eliminação é, não só Sérgio Baresi, mas também diretores e outros treinadores, que têm objetivos pessoais, contraditórios a formação de atletas.

Na hora de buscar uma explicação precisamos de cuidado, pois sem querer podemos culpar os inocentes.

 

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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6 Responses to E que não sejam culpados os inocentes…

  1. gabrielfuh says:

    Culpo pouco o Émerson Ávila, embora também conteste seu trabalho. Ele não teve tempo de focar no trabalho da sub-20. Ele foi avisado em cima da hora de que comandaria a equipe também no Sul-Americano. Convocou por nome. Ele sabe e assumiu que errou na convocação, mas a culpa não é dele, é da CBF, que montou o trabalho nas coxas e não deu respaldo para ele.

  2. fabio says:

    o culpado foi o Goiás que acertou dois gols de fora da área.

    Mirray, se tivesse feito o gol, ganharia textos como redentor.

  3. Claudinho says:

    Primeiro, com todo respeito esse Emerson Avila não tão inexperiente assim. Ele já não treinou o principal do Cruzeiro? A grande verdade é que ele ressucitou aquele fato de prestigiar jogadores do Rio de Janeiro. Quem assistiu a copinha pode ver vários jogadores melhores que muitos que estavam lá. O que fazia lá, por exemplo o filho do Bebeto? O que fazia em São Carlos o João Schimidt, que na época do Ney Franco chegou a ser capitão da seleção. Este cara é muito ruim. Copa São Paulo. O que me chamou a atenção é que os 14 foram contratados e indicados (segundo li na imprensa), pelos ‘olheiros’ do Renê Simões. Como um treinador que se julga muito experiente entra numa partida decisiva sem nenhum atacante no banco. Para que colocar tanto volante. Como manter na equipe um zagueiro tão ruim (Marcelo) e ainda dar a ele a tarja de capitão. É JJ vc vai ter que, se for coerente, mandar embora o seu filho adotivo.

  4. Bianca Bianchin Goes says:

    Perfeita analise! E sim, Mirray perdeu um gol feito e um penalti num momento decisivo, mas podemos citar diversos jogadores que já perderam penalti em decisões, zico, socrates, rai, baggio. Agora crusificar o Mirray é um injustiça! Baresi é um pessimo treinador e “puxa saco” de determinados atletas, no caso da dupla Pedrinho e Nelsinho que possuem qualidade inferior a Mirray e ao poquissimo aproveitado Victor Ruffo. Deveriam fazer um limpa em Cotia, e não é de jogadores, pq lá existem otimos talentos que são injustiçados, e sim de certos profissionais que não possuem criterios justos para escalar atletas.

  5. Concordo plenamente contigo Gabriel, sinto que esse CT de Cotia tem muitas coisas ocultas, e que devem vir atona custe o que custar.
    Sinto também que tem esquemas com empresários no meio, e nesse meio inclue-se BARESI e o intocável sr GERALDO.
    Em resumo há podridão no reino de JJ.

  6. Helder says:

    O gol perdido pelo tal Mirray até o saci pererê com contratura faria.

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