Opinião: sejam sérios se quiserem cobrar seriedade

O futebol brasileiro é o mais hipócrita que já vi no mundo e talvez também o maior caso de complexo de vira-lata do universo. Sério, se existisse um planeta, em uma galáxia, onde todos se acham inferiores, não chegaria aos pés do complexo de vira-lata que existe por aqui.

Não bastasse isso, ainda é o mais ganancioso de longe. Não ganância por um bom jogo, por bons campeonatos e bons jogadores. Ganância financeira mesmo, só se importa com o dinheiro.

Introdução feita, vamos ao que acontece: os clubes brasileiros pretendem boicotar o São Paulo, acusando o time paulista de aliciar jogadores. Aliciar jogadores, a palavra é aliciar.

Entre os atletas colocados em questão estão Foguete, ex-Vasco, Bruno Dip, trocou Corinthians por São Paulo e Paulo Henrique, que esteve em transação do Grêmio Prudente para o Coritiba, mas acabou indo para o Tricolor.

Eles querem seriedade do tricolor. Querem que o clube paulista chegue diretamente e converse com eles antes de qualquer coisa.

Não discordo. Acho que é o que manda a ética, você não tira o atleta de um clube sem antes falar com a própria instituição em que ele estava inscrito.

Mas para querer tanto, se espera que o clube se leve a sério e leve o jogador a sério, principalmente. Como cobrar que outros clubes lhe dêem valor, se você mesmo não valoriza o que tem em casa?

A fórmula é simples, o São Paulo tem muita estrutura para o futebol de base. Paga salários aos jogadores com contrato profissional. Tem um CT próprio, com acomodações, piscina, campos de futebol, um Reffis próprio e o mais importante de tudo: paga em dia.

O time do Morumbi está longe de ser um exemplo. Não poupo minhas criticas ao senhor José Geraldo, que ao que tudo indica, não por essas acusações externas, mais atrapalha do que ajuda o trabalho de revelar atletas. Isso devido ao seu jogo de interesses e curto conhecimento de futebol.

Fica difícil para clubes como o Vasco, time mais motivado no boicote, que assumidamente não pagou mais a ajuda de custo definida com Foguete e que por isso ele saiu legalmente do clube. Era um direito dele procurar outro lugar para trabalhar, já que não recebia salário onde trabalhava. Estamos falando do Vasco, onde um jogador de 15 anos morreu durante um treino há não muito tempo atrás, por motivos até hoje obscuros.

O Vasco, atualmente, é uma vergonha para o futebol profissional. E isso ficou provado nessa matéria da ESPN.

“Como se os jogadores vivessem em uma casa para menores infratores”, não sou eu quem disse, foi o Ministério Público que disse que treinar nas categorias de base do Vasco é isso. A partir do momento que dá essas condições de treinamento, não pode querer forçar ninguém a ficar no clube contra a própria vontade.

Outros clubes podem não chegar a tanto, mas não levam seu futebol de base tão a sério para poder reclamar assim, ainda que o próprio São Paulo precise levar mais a sério suas categorias também. Preocupar-se em formar de fato jogadores e não nos jogos de interesse de seu presidente e pupilos, como José Geraldo.

Acho que mais interessante do que começar a promover esses boicotes aos clubes, que verdade seja dita, deveriam ser endereçadas aos empresários, seria começar a colocar em prática de fato a CCF feita pela CBF.

CCF significa Certificação de Clube Formador, regulamentação que exige que o clube tenha uma estrutura mínima, caso queira funcionar na formação de atletas.

Ela existe desde janeiro de 2012, diz, entre outras coisas, que os clubes devem ter acompanhamento escolar de seus atletas, devem dar opção de cursos técnicos, devem ter condições médicas próprias para as categorias.

Se essa regulamentação estivesse funcionando de verdade, casos como esse seriam minimizados, pois situações precárias como a do Vasco não aconteceriam. E muito mais importante do que segurar um jogador que poderia render milhões no futuro: uma morte poderia ter sido evitada. No entanto, a confederação simplesmente distribuiu os certificados para os clubes com alguma camisa

Sobre o boicote:

Aos três casos mais conhecidos fica difícil dizer se houve de fato aliciamento. Foguete estava sem receber no Vasco e pediu para ir embora, poderia ter ido para qualquer time do mundo e não estaria errado, ficou meses sem receber. Você não faria o mesmo se sua empresa parasse de pagar o teu salário? Ele teve a possibilidade de ir para uma das melhores do país na formação de atletas e o fez.

Bruno Dip, de apenas 15 anos, é mais um dos milhões de casos de jovens jogadores mudando de clube antes de assinar profissionalmente. Se parar pra olhar, é o que mais acontece na virada de ano e todos os clubes, sem exceção, tem casos de saída e chegada. Uns mais valorizados e outro menos. Comparável ao Lucas, talvez, que deixou o Corinthians depois que o alvinegro se recusar a pagar o transporte e o tratamento médico do atleta. O São Paulo ofereceu um lugar pra ficar e aí está Cotia.

O próprio tricolor sofreu com isso no caso Lucas Evangelista. O São Paulo não ofereceu a oportunidade do jovem morar em Cotia, o Desportivo Brasil ofereceu e o jogador mudou de clube. Depois, quando iria assinar profissionalmente com o São Paulo, depois de se destacar no clube do interior, o jovem foi seduzido pelo Projeto Manchester e voltou ao Desportivo. Hoje Lucas está de novo no São Paulo e essa história é passado.

E como podem ver, o mais engraçado é que os clubes estrangeiros fazem exatamente o que o São Paulo fez o tempo todo. São inúmeros torneios rolando o ano inteiro para que os gringos observem jogadores brasileiros. Quantos e mais quantos não passaram por testes em estrangeiros antes de se profissionalizarem? Nesse caso Grêmio Prudente, Osasco, Nacional e todos os de média e pequena expressão acham lindo o que acontece.

Nesses casos o trabalho dos gringos é profissional, com seus Summer Camps e etc. A verdade é que rolando grana por fora pra quem tem essa ganância, tudo bem, pode fazer.

A situação é complicada, pois sempre parto do princípio de que é mais fácil uma grande instituição explorar um jogador, do que um jogador, sozinho, explorar um clube com milhões de torcedores, milhares de sócios e centenas juristas. Acho válido os times se mobilizarem pelo futebol de base, mas não acho que estejam direcionando essa força para o lado certo.

A verdade é que se não há nada ilegal no que faz o São Paulo, como afirmam seus próprios acusadores, quem pode mais, chora menos. Simples assim.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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