[Caso Diego Costa] Quem é a verdadeira persona non grata?

Nesta semana o brasileiro naturalizado espanhol Diego Costa anunciou que não vai aceitar as convocações para a Seleção Brasileira e que pretende defender a Fúria na Copa do Mundo disputada no Brasil.

Em repúdio ao atleta, a Confederação Brasileira de Futebol o chamou de persona non grata, o famoso mal-agradecido. Para entender isso tudo nós precisamos saber: quem realmente tem algo a agradecer?

Diego Costa nasceu no Sergipe, em uma cidade chamada Lagarto, em 1988. Até agora 25 anos se passaram e a CBF nada fez para desenvolver o esporte no local. Desde 1988 nada foi feito para que atletas como Diego Costa não precisassem deixar o estado em busca de oportunidades, não só para viver do futebol, como também para iniciar a carreira na modalidade.

Chegando em São Paulo, para jogar no Barcelona de Ibiúna, se deparou com a precariedade das categorias de base brasileiras. Com campeonatos mal-estruturados e poucas oportunidades, mas deu sorte: aos 15 anos foi visto por um empresário e contratado pelo Sporting, de Portugal. Fez o que os atletas deveriam fazer em um país de tão poucas oportunidades e foi pra Europa sem pensar duas vezes.

Na Europa encontrou muitas oportunidades, encontrou uma estrutura digna para jogadores, mesmo antes deles se profissionalizarem. Encontrou estudo, equipamentos médicos, qualidade de vida. Jogou em muitos times até chegar ao sucesso no Atlético de Madrid. De lá pra cá dez anos se passaram e por Diego Costa a CBF não fez nada, por Sergipe, muito menos.

E o nada que a CBF fez em Sergipe, também faz em diversos outros estados, já que tem os olhos voltados apenas para os clubes grandes e o futebol profissional. Mesmo assim, não atendendo as necessidades dessa pequena parcela, já que ainda mais importante que isso, é o lucro dos amistosos.

O que a Confederação Brasileira de Futebol fez por Diego Costa que ele deva agradecer tanto?

Nunca trabalhou para dar oportunidades para que, não só Diego, mas muitos outros jovens talentosos tivessem a chance de começar de forma digna a sua carreira. Não buscou de forma alguma estruturar as categorias de base no país, o que faria com que atletas juvenis e infantis tivessem como jogar, estudar e ter uma assistência adequada, aumentando as chances de que jovens promissores pudessem aparecer, seja no interior de São Paulo, seja no interior do Norte e Nordeste do país.

As declarações recentes dos diretores e treinadores da nossa Seleção também não são muito animadoras. Entre outros, sempre que têm a oportunidade, eles buscam eximir a CBF de responsabilidades com o esporte.

Trata-se de uma empresa que serve para gerar lucro em cima do futebol de atletas como Diego Costa, vendendo jogos da nossa Seleção sem reverter nem um mísero centavo do valor milionário para desenvolver a modalidade no território nacional. Se trabalhasse em prol do esporte em vez do dinheiro, talvez nosso futebol tivesse estrutura para que jovens, justamente como Diego Costa, não precisassem sair do Brasil aos 15 anos, em busca de dignidade no futebol europeu.

De forma mesquinha e irritada, diretores da CBF disseram que não só Diego Costa jamais será convocado para a Seleção, como também eles farão de tudo para que ele não defenda a Espanha.

Há uma causa nesse ponto que precisa ser citada: realmente, é necessário um controle da naturalização de jogadores e convocação por Seleções. Diego realmente jogou pelo Brasil, mesmo que fora de uma data Fifa. Se deixar muito, vira Futsal, onde Seleções Europeias montam times completos de brasileiros. No entanto, as declarações de Felipão me incomodam, soam muito hipócritas. Quando ele comandou a Seleção de Portugal e tinha Deco no time titular era normal e agora não é mais? Parece bastante hipócrita da parte do treinador.

Só que daí a dizer que Diego Costa é um mal-agradecido a CBF existe um abismo. Se alguém tem que agradecer alguma coisa, é a própria Confederação, que precisa agradecer ao talento natural brasileiro que tornou a nossa Seleção tão cara de contratar, que tornou o cachê da Seleção Brasileira para amistosos um dois mais altos de todos os tempos, que fez com que o patrocínio de uniformes fosse um dos maiores e mais valiosos do mundo contratos do.

A CBF suga o futebol do nosso país sem dó.

Diego Costa não vai defender o Brasil e dá pra entender. Não tem como ser non grato com uma via de mão única, onde jogadores entram com o talento, os torcedores com o fanatismo e a CBF sai com o dinheiro.

 

 

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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2 Responses to [Caso Diego Costa] Quem é a verdadeira persona non grata?

  1. Bruno Burlamaqui says:

    Acho um absurdo um cara que, ainda ontem, já como atleta profissional, atendeu a uma convocação da seleção brasileira e entrou em campo para defender as suas cores, agora, hoje, aproveite-se da brecha na lei para tentar apagar esse fato da memória do torcedor de futebol de todo o mundo e passar a defender outro selecionado nacional. Isto é imoral. É falta de identidade e um desrespeito às duas nações.

    Por mim, será muito bem vaiado no Brasil 2014. Por mim poderia jogar tranquilamente pela Espanha, desde que jamais tivesse entrado em campo pela seleção brasileira profissional. A permissão de algo assim é ridículo, mas é o que diz as regras da FIFA, isto é, que só valem partidas oficiais para os registros.

  2. Flávio Pintor Romero says:

    Fuhrmann, comentário pertinente e justo. A essência para o debate não é a escolha do atleta, e deveria ser a absurda liberação da FIFA e o cinismo da CBF. Seleção Nacional, para mim, deveria considerar unicamente o local de nascimento, jamais atletas naturalizados. Estamos “assossiando” (rss….) as estratégias e poderios dos clubes com a paixão e real objetivo das seleções dos países. Resumo : BUSINESS.

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