Entenda as polêmicas que rondam a contratação de Iago Maidana pelo São Paulo

O São Paulo confirmou nesse mês de setembro a contratação do zagueiro Iago Maidana, ex-Criciúma e que chegou a atuar pelas categorias de base da Seleção Brasileira junto com Lucão.

O zagueiro de 19 anos foi promovido pelo time catarinense ano passado, quando a equipe já não tinha mais chances de se manter na Série A do Brasileirão e acabou sendo incluído na lista da Seleção sub-20 que foi vice-campeã mundial da categoria em maio desse ano.

A princípio nada de anormal nessa negociação, mas as coisas ficam muito nebulosas conforme se aprofunda nela, gerando diversas suspeitas, não só da participação de empresários como também quanto a origem e objetivo do dinheiro no negócio.

Valores

A multa de Iago Maidana com o Criciúma, em contrato, era de apenas 50 mil reais. Ainda assim, o valor pago por empresários para desvincular o jogador da equipe foi de 800 mil reais.

Por que o valor pago pela Itaquerão Soccer LTDA foi 16 vezes maior do que a multa rescisória?

Depois de “comprado” pela Itaquerão Soccer LTDA, Iago passou apenas dois dias registrado no Monte Cristo, de Minas Gerais e em 48 horas valorizou incríveis 500%. Em um dia, quando a Itaquerão Soccer LTDA, em nome do Monte Cristo, fez o aporte financeiro para comprar 100% do jogador, pagou R$ 800 mil, mas apenas dois dias depois, quando repassou o atleta ao São Paulo, seu valor já era de R$ 2,4 milhões por 60% (400 mil caso ele atue dez vezes pelo São Paulo).

Não teria saído todo mundo ganhando financeiramente de certa forma, exceto o São Paulo? Segundo declarações do presidente do Monte Cristo, Getúlio Orlando de Souza, o clube ficou com apenas R$ 500 mil da negociação e todo o restante ficou com os sócios da Itaquerão Soccer LTDA.

Ele também afirma que toda a negociação foi feita pela Itaquerão Soccer LTDA e que o clube só registrou o atleta, tudo já estava encaminhado pela empresa e pelo São Paulo.

Ou seja:

- Criciúma ganhou 16 vezes mais do que o valor real do seu jogador: R$ 800 mil por um atleta que valia R$ 50 mil.

- O Monte Cristo, que só teve o trabalho de registrar, ganhou R$ 500 mil.

- A Itaquerão Soccer LTDA já recebeu R$ 2 milhões, sobrou com R$ 700 mil (depois de pagar Criciúma e Monte Cristo) e irá receber mais R$ 400 mil caso o atleta atue 10 vezes pelo tricolor.

O único que saiu perdendo foi o São Paulo. A pergunta que não quer calar: o que o São Paulo ganha pagando mais caro a um grupo de pessoas por um jogador? Será que é o mesmo que o ganha quando contrata jogadores contestáveis como Edson Silva e Reinaldo?

Empresa novata e contraditória?

A Itaquerão Soccer LTDA existe há apenas dois meses. Ao pesquisar seus sócios, não se encontra nada conclusivo, um deles aparece no Linkedin como operador de Telemarketing, mas os dois fizeram um aporte de R$ 250 mil cada para abrir a empresa.

O interesse do tricolor em Iago Maidana começou há cerca de dois meses. Muitos veículos de empresa noticiaram. A Itaquerão Soccer LTDA foi fundada em julho desde ano. Seria coincidência?

Outra coisa que assusta é o número de vezes que as pessoas ligadas a empresa entram em contradição durante entrevistas. Fernando Moraes Ville, representante, disse que já tratava do negócio há nove meses, em entrevista a Folha de S. Paulo. Só que, como já visto, a empresa só existe há dois meses.

Clube Hospedeiro

Umas das coisas que a Fifa tenta coibir é a existência de clubes hospedeiros. Eles são clubes que registram os atletas e funcionam apenas como pontes para que ele assine com outra equipe.

A questão é subjetiva, mas fica difícil negar a participação do Monte Cristo como um hospedeiro, uma vez que Iago Maidana passou apenas dois dias registrado na equipe e sequer se apresentou ao time goiano. Outra coisa é o porte da equipe, que disputa apenas a terceira divisão,.

Não é a primeira vez que um clube da terceira divisão de um estado aparece como hospedeiro de jogadores. O Coimbra Esporte Clube, de Minas Gerais, que tem ligações com a BMG, já teve direitos econômicos de mais de 60 atletas e em valores somados, tinha em seus poder mais valor do que Palmeiras e Flamengo juntos, por exemplo.

A Fifa já puniu cerca de 15 equipes em situações idênticas a do Monte Cristo.

O que diz a lei?

A Fifa instituiu que a partir de maio, nenhum terceiro, que não um clube de futebol, poderia ter participação sobre um jogador e isso inclui receber dinheiro em uma transação.

No artigo 18bis

1. Nenhum clube deve entrar em um contrato que permita que o ex-clube ou qualquer terceiro, tenha influência nos vínculos empregatícios, transferências ou performance no time.

2. O Comitê Disciplinar da Fifa pode impor medidas disciplinares em clubes que não observarem as obrigações desse artigo.

No artigo 18ter

1. Nenhum clube ou atleta deve entrar em um acordo com um terceiro, ou do qual o terceiro possa participar, totalmente ou parcialmente, para receber compensação em uma futura transferência ou que tenha qualquer direito sobre as transferências do atleta.

2. O Comitê Disciplinar da Fifa pode impor medidas disciplinares em clubes que não observarem as obrigações desse artigo.

Já a CBF diz o seguinte:

Art. 66 – Em obediência aos artigos 18bis e 18ter do Regulamento sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores da FIFA, nenhum clube ou jogador poderá celebrar um contrato com um terceiro por meio do qual este terceiro obtenha o direito de participar, parcial ou integralmente de um valor de transferência pagável em razão da futura transferência dos direitos de registro de um atleta de um clube para outro, ou pelo qual se ceda quaisquer direitos em relação a uma futura transferência ou valor de transferência.

§ 1º – Para efeito deste artigo, entende-se como terceiro quaisquer outras partes que não sejam os dois (2) clubes participantes da transferência do atleta ou qualquer outro clube ao qual o atleta tenha sido registrado anteriormente.

§ 2º – A vedação prevista no caput deste artigo entra em vigor em 1º de maio de 2015.

§ 3º – Os contratos dessa natureza que tenham sido celebrados no período entre 1º de janeiro e 30 de abril de 2015 só poderão ter validade máxima de um (1) ano, vedada qualquer mutação, extensão ou prorrogação, seja a que título for.

§ 4º – Os contratos abrangidos pelo caput deste artigo, se já existentes a partir da entrada em vigência do respectivo dispositivo vedatório, continuarão em vigor até o seu prazo original de encerramento, não podendo ser, em nenhuma hipótese, modificados, prorrogados ou estendidos.

§ 5º – Até o dia 30 abril de 2015, todos os contratos existentes e abrangidos pelas hipóteses constantes deste artigo devem ser registrados perante o Departamento de Registro e Transferência da CBF.

§ 6º – A obrigação referida no parágrafo anterior impõe a todos os clubes e atletas que tenham, a qualquer tempo, firmado estes tipos de contrato envolvendo potenciais direitos de terceiro remetê-los para a CBF em arquivo digital visando o seu registro na íntegra, inclusive com os anexos ou aditivos, além de especificar, pelo menos, os detalhes identificadores do terceiro envolvido, o nome completo do jogador e o prazo de validade do respectivo contrato.

§ 7º – É de competência do Comitê Disciplinar da FIFA, dos Tribunais de Justiça Desportiva e do Superior Tribunal de Justiça Desportiva impor medidas disciplinares aos clubes e/ou atletas que infrinjam as prescrições cogentes previstas neste artigo.

Quem vai julgar o caso?

A Fifa diz no começo de seu novo estatuto que em transações domésticas, a Confederação local deve ser responsável pela investigação e possíveis sanções. No entanto, a própria CBF tem em seu estatuto o seguinte trecho:

2º – Nos casos omissos o Regulamento da Comissão do Estatuto do Jogador e da Câmara de Resolução de Disputas da FIFA será fonte subsidiária de modo a garantir a efetividade da prestação arbitral na esfera do futebol e assegurar o cumprimento dos artigos 66 e 67 do Estatuto da FIFA pelos clubes, atletas, dirigentes e intermediários.

A CBF não se omitirá do caso, ao que tudo indica. No entanto, caso a punição seja branda, nada impede uma intervenção da Fifa, como aconteceu nos casos de Jobson e Dodô.

Fifa já puniu clubes nessa situação?

No ano passado a Fifa multou mais de dez clubes hospedeiros. Todos responsáveis por transações internacionais.

Neste ano mais três foram multados e impedidos de contratar por dois anos (ou quatro janelas). Pra completar, recentemente uma equipe belga foi punida com o impedimento de registro de jogadores por quatro janelas de transferências.

No caso, o FC Seraig foi punido por vender partes de diversos jogadores para terceiros. Mais próximo do Criciúma do que do São Paulo.

Em resumo

Todo mundo infringiu a regulamentação da Fifa e está passível de punição. Embora o Criciúma já tenha se dito vítima de um caso de aliciamento, a figura pode não ser interpretada dessa forma.

O clube recebeu de empresários, vendeu os direitos econômicos para a Itaquerão Soccer LTDA por 16 vezes mais do que a multa contratual do atleta. O FC Seraing foi punido pela Fifa por vender partes de seus atletas para terceiros.

O Monte Cristo foi claramente um time hospedeiro e recebeu R$ 500 mil pelos seus serviços, segundo o próprio presidente do clube. Já foram mais de 15 equipes multadas por situações idênticas.

Itaquerão Soccer LTDA também está longe de estar a salvo, uma vez que ela não pode comprar jogadores desde maio deste ano, a empresa também vai precisar explicar como fez a negociação e como seu atleta valorizou 500% em apenas 48 horas.

O São Paulo pode ser punido também: negociou com terceiros, pode ser considerado aliciador sim, por ter envolvido terceiros na situação para tirar o atleta do seu ex-clube, situação em que poderia ser punido por duas coisas diferentes: aliciamento e negociação direta com terceiros.

O mais importante para o torcedor são-paulino: alguém do São Paulo precisa explicar como um clube que alega estar com dificuldades financeiras extremas, paga R$ 2,4 milhões de reais em um jogador que valia apenas R$ 50 mil e para um grupo de empresários que existe há apenas dois meses?

O tricolor alega estar respaldado juridicamente sobre o caso, mas dado a tudo o que é apresentado, vai precisar de uma brecha enorme pra escapar de alguma sanção.

 

 

 

 

 

 

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base.
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