Em entrevista, Jardine diz que vê Lucas Fernandes disputando vaga na Seleção futuramente

No sábado, dia 7 de março, tive a chance de bater um papo com o técnico do São Paulo sub-20, André Jardine. Multicampeão pelo tricolor, Jardine é tido como um dos principais responsáveis pela mudança de postura da base do São Paulo, que conquistou quatro dos sete torneios que disputou pelo sub-20 em 2015/16.

Jardine

André Jardine com a taça da Libertadores sub-20 (foto: site oficial)

Só no ano de 2015, o tricolor venceu a Copa Ouro, a Copa do Brasil e a Copa RS Sub-20 e no começo de 2016 coroou a temporada com a conquista da Libertadores da categoria.

Conversamos sobre diversos assuntos. O treinador comentou que acredita ser necessário um trabalho para aproveitar os atletas que passam dos 20 anos de idade e vê esse como um defeito grave do futebol brasileiro. Atualmente não há projetos no futebol brasileiro para dar continuidade ao trabalho com atletas acima dos 20. Jardine confessou ser fã do técnico Pep Guardiola e que é um estudioso assíduo do trabalho do espanhol, que já conquistou três vezes o Mundial de Clubes da Fifa, duas vezes a Champions League e ainda tem 11 títulos nacionais no currículo.

Fiquei pessoalmente admirado com a visão de André Jardine sobre futebol, mostra que há uma geração de treinadores tão promissora quanto a geração de jogadores e há um horizonte onde o Brasil sai desse mais do mesmo que vive há alguns anos.

Além disso, em conversa bastante informal, mostrou uma visão atualizada do esporte, com muita exploração tática, de jogo coletivo e principalmente uma postura de trabalho forte para a promoção de jogadores sub-20. Jardine disse que vê em seu time muitos jogadores que podem ser úteis para o São Paulo, mas que precisam de espaço para mostrar isso, que às vezes as pessoas enxergam uma distância muito maior do que a real entre um jogador da base e um profissional e que já há um diagnóstico da direção para que os atletas sejam mais aproveitados no time do Morumbi.

Durante a conversa ao vivo na rádio Jovem Pan, com a participação de Flávio Prado, Jardine comentou sobre alguns jogadores e disse que acredita que Lucas Fernandes disputará uma vaga na Seleção Brasileiro no futuro, pois é um jogador de rara qualidade técnica e cognitivo muito alto.

Boa parte da nossa conversa segue transcrita abaixo!

O time teve um começo de ano ruim, foi mal no Brasileiro sub-20. O que mudou ao longo do ano?

- Todo processo de mudança leva um certo tempo para a adaptação de todos. Tem que ser dito também que o São Paulo tinha ano passado um time extremamente jovem no sub-20 e a gente começa o ano em um campeonato brasileiro que ainda permitia o uso de jogadores acima dos 20 anos. As equipes que se destacaram naquela competição eram equipes que tinham jogadores /95, alguns usando ainda jogadores acima da idade e a gente com uma base /96 e alguns /97, então, a diferença de idade pesou demais. Além, é claro, da mudança de filosofia e comportamento, que é óbvio que ainda não tinha tempo o suficiente para ser testada no nível daquela competição. Acho que o trabalho cresceu demais durante o ano e graças a Deus a gente conseguiu comprovar que estava no caminho certo. A gente entra esse ano em uma condição superior em relação ao ano passado.

O Banguelê foi um jogador que fez diferença para o São Paulo nessa mudança de postura?

-  O Rafael Cabrera identificou muito bem essa necessidade no time, que eu mesmo cheguei a contestar no início, mas deu muito certo. O São Paulo não tinha um volante com a característica dele, também perdi o Gustavo Hebling, então foi uma necessidade que o Cabrera identificou muito cedo. Fez diferença no nosso estilo de jogo, a chegada do Arthur também e nos próximos times temos jogadores que podem jogar assim, como o Militão e o Luizão, que são dois /98 que trabalhamos desde cedo.

Você passou por quatro técnicos e quatro filosofias diferentes, Muricy Ramalho, Milton Cruz, Osório e agora o Bauza. O quanto isso influencia o seu trabalho? O que muda pra você a cada mudança de treinador do São Paulo?

- A gente tem que ser bom observador e perceber acima de tudo o que o treinador gosta, que linha que ele segue e o que ele exige dos seus jogadores. A gente tenta antecipar o processo na base pra quando o jogador subir não sentir tanto a diferença de cobrança e de metodologia de treino. É claro que a gente tem que ter um pouquinho da nossa identidade, mas tem que observar e de alguma maneira ajudar os jogadores nessa transição, pra eles não sentirem tanto a diferença.

E como é a relação entre base e profissional no São Paulo? 

- Essa é uma questão que a diretoria está tentando melhorar no São Paulo. Ano passado a gente já começou a ter alguns treinamentos na Barra Funda e isso por si só é uma ação que gera uma proximidade muito grande das duas comissões, porque a gente pode conversar antes do treino, depois do treino, durante o treino. O treinador também pode olhar os meninos in loco no treino, dentro do seu próprio ambiente e tirar suas próprias conclusões de cada jogador, não só no dia do jogo, mas acima de tudo em como ele trabalha no dia-a-dia. A nossa aparição na Barra Funda, imagino eu, vai ser cada vez mais rotina no profissional do São Paulo.

A base do time no ano passado era /96 e são jogadores que em 2017 não jogarão a Copa São Paulo. Como você planeja o time para a disputa dessa competição?

- A gente, durante 2016, vai usar uma equipe com alguns meninos /96, que a gente vê projeção dentro do próprio clube ou para um futuro negócio, mas em paralelo vamos com certeza preparar essa equipe, que será /97 com alguns /98. Vamos em paralelo preparar duas equipes, pensando na Copa São Paulo que é só em janeiro do ano que vem, então as competições desse ano os /96 podem e vão jogar, pois é justamente nesse último ano de junior que o jogador consegue dar o salto final de evolução.

A ideia é criar então uma equipe sub-19 ou sub-18?

- O São Paulo vai criar a sub-19, na verdade sub-18, pois a base será de atletas /98, mas dentro do nosso plantel a gente deve em muitos jogos do Paulista e até dos torneios nacionais usar uma base /97 com jogadores /98, pensando já na Copa São Paulo.

E os 96 que não forem promovidos, o que você imagina que deve acontecer com eles em 2017?

- A gente vai continuar utilizando eles durante o ano. Eles devem começar a ter o desfecho do seu destino até o fim desse ano. Com certeza alguns meninos devem subir pro profissional, alguns emprestados, outros negociados e a gente torce que até o fim de 2016, começo de 2017, todos estejam com seu futuro programado para que possamos começar a projetar os /97, porque a fila anda e a gente não pode parar.

O São Paulo perdeu o William, que era um captador importante e foi pra Seleção e foi veiculado que teria havido um desentendimento entre você, o William e o Rodolfo Canavesi. Isso é verdade? O que aconteceu realmente?

- Não, nunca houve isso. Nosso relacionamento no São Paulo é muitissimo bom, tanto eu com o William ou com o Rodolfo. Na verdade eu estou de férias, me pegou de surpresa essa notícia. A oportunidade que foi dada ao William é uma oportunidade que não se pode deixar passar e obviamente qualquer profissional no lugar dele aceitaria um convite de uma Seleção. É o sonho de qualquer profissional defender o país.

Você veio do Sul, treinou a dupla Gre-Nal. Conta um pouco como foi a sua passagem por esses clubes?

Inter

- No Inter foram dez anos, muito felizes inclusive. Foram muitos jogadores revelados no profissional e muitos ainda sendo revelados a partir daquele trabalho. Muitas conquistas, todo meu processo de formação como treinador foi feito no Inter, mas chega sempre o momento que a gente precisa dar um passo adiante e no Inter não foi diferente. Chegou um momento que era necessário a fila andar, outros profissionais surgirem e eu sou muito grato por tudo o que aconteceu no Inter.

Grêmio

- No Grêmio foi um um ano muito intenso, onde as coisas aconteceram muito rápido. Eu fui contratado para o juvenil, rapidamente fui promovido para o sub-20. Conquistamos um título que há muito tempo o Grêmio não conseguia, que era o estadual sub-20 e muitos daquela equipe hoje integram o profissional, então foi um trabalho bem realizado. Acabei subindo pro profissional também, de uma maneira precoce e o fato é que no profissional a chegada do Felipão com mais dois auxiliares tirou um pouco do meu espaço de atuação. A partir do momento que o Junior (Chávare) veio pra cá e a nossa relação é muito boa, ele sabe da competência que eu tenho e me fez o convite, aí eu não pensei duas vezes. O São Paulo hoje está me abrindo muitas portas e era um passo que precisava dar, sair um pouco da região onde eu já era mais conhecido, que é o Sul e começar a abrir as portas em outro lugar.

O tricolor parece ter uma séria dificuldade em colocar seus atletas no profissional. O que fazer para que o São Paulo consiga aproveitar esses jogadores?

- O diagnóstico é esse que a direção tem feito. Precisa de aproximação, de mais contato da base com o profissional, para que os profissionais que dirigem o time principal terem a exata noção e a dimensão da qualidade de cada menino, para saberem o momento certo de lançar cada um deles e criar espaço no profissional para que eles surjam. Eu acho que essa proximidade vai certamente resolver o problema.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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