O gato no futebol – mais complexo do que se imagina

Na véspera da final da Copa São Paulo de Juniores, mais um caso de adulteração de documentos colocou o futebol em um campo muito maior do que às quatro linhas que o cercam.

Dessa vez era o zagueiro Heltton, 22 anos, que se passava passava por Brendon, de apenas 19. O caso não é o primeiro, não será o último, com certeza não era o único na Copa São Paulo de Juniores ou mesmo no futebol profissional. A verdade é que a adulteração de documentos, muitas vezes dá certo pela carreira inteira do jogador, que inclusive chega ao profissional e pode até ter algum sucesso.

Há alguns anos, Fernando Baiano Amorim, nascido 1995, revelou que na verdade era Fábio Amorim, nascido em 1990, quando jogava pelo Internacional. Depois de revelar o “gato”, passou pelo Japão e hoje é jogador do Atlético-GO. No Vasco, de onde saiu o suspeito Thiago Mosquito e por onde Fernando Baiano também passou, outrocaso. Após um ótimo Sul-Americano sub-15, Helton Baiano, na época com 15 anos, revelou que na verdade se chamava Fabrício e já tinha 20. Ganhou chance no juniores do Vasco e hoje é atleta do Coritiba.

O que esses casos tem em comum?

Veja que todos esses atletas já estão no limite da idade para jogar nas categorias de base ou até já estouraram. Por que as pessoas acabam sendo condescendentes com esses jogadores? Por que clubes e comissão técnica acabam dando uma segunda chance para eles? Eles são muito talentosos? Nem sempre.

A grande verdade é que esse é o último recurso da vida da maioria desses garotos. Quando foi descoberto na Bahia, Fernando Baiano já havia adulterado seu documento na esperança de chegar ao grande centro. Quando se apresentou aos grupos estrangeiros que lá estavam, ele já havia feito a adulteração nos seus documentos.

É o recurso do desespero de uma pessoa que não pode mais jogar ou nunca teve a chance na base de um clube de grande porte, de ter ao menos uma oportunidade. De uma pessoa que com o que faz ou fará no futebol, nem que seja um salário mínimo ou de até 5 mil reais na base, vai sustentar uma família inteira, às vezes até filhos.

É um reflexo da situação social do Brasil e da forma como se leva o futebol de base no país. Mais da situação social, é verdade. O mesmo vale para a África, os casos de gato não são maiores lá só porque é mais fácil adulterar um documento ou porque o porte físico dos atletas africanos permite o disfarce, mas porque a situação parte do desespero, de uma última chance de ir pra Europa, de sustentar uma família, de chegar a algum lugar.

A compaixão que vem de atletas mais velhos e das comissões técnicas, vem da experiência própria. De quem sabe que poderia ser ele (e às vezes até foi) dando esse golpe, praticando esse crime e entende perfeitamente o que motivou o “gato” a cometer o delito.

Em tempo, também reflete o modo como o futebol é tratado. Jogadores com maior físico, normalmente levam vantagem na base, são preferência de treinadores e o período de vida da base é curto, apenas do sub-15 ao sub-20, cinco anos pra dar certo ou então fim da linha.

O “gato” é um crime sim, é uma injustiça com outros jogadores e merece punição, mas também é uma consequência do mundo em que vivemos, infelizmente.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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