Curtinha com Michael Beale – Auxiliar de Ceni fala sobre o trabalho em Cotia

Michael Beale (Liverpool)

Michael Beale

Na saída do jogo entre São Paulo e Linense, tive a chance de conversar por alguns minutos com Michael Beale, o auxiliar que Rogério Ceni trouxe da Inglaterra.

Como apaixonado por futebol de base que sou, não deixaria escapar a oportunidade de falar sobre Cotia com um profissional que é igualmente (provavelmente até mais) amante da formação de atletas e conversamos por cerca de cinco minutos sobre Cotia. Como a entrevista foi 100% em inglês, transcrevi ela na íntegra para o blog.

Confira abaixo o que disse Michael Beale:

GF: As pessoas dizem que jogadores brasileiros não são inteligentes taticamente. Isso é verdade?
*Essa pergunta na realidade foi feita por outro repórter, que entrevistava Beale antes de mim, mas achei muito boa e coloquei aqui também

MB: Não, não é verdade. Eu acho que aqui as táticas são afetadas massivamente pelo tanto de jogos que vocês jogam. Você joga a cada três dias, então os jogadores atuam cansados e isso acaba forçando a tática contra você, isso força você a jogar mais defensivamente, a jogar no talvez no contra-ataque ou de repente a jogar mais devagar e com a posse de bola, descansando. Olha, o clube de onde eu vim, o Liverpool, joga com Coutinho e Firmino e não há nada errado com eles dois taticamente, eles são taticamente dois dos melhores jogadores. Neymar foi do Santos pro Barcelona, o time mais tático do mundo, ele tem que jogar em uma certa área do campo e não tem qualquer problema fazendo isso. Vocês têm mais jogadores atuando ao redor do mundo do que qualquer outra nação. Vocês não têm problemas com jogadores entendendo táticas, não, não, vocês talvez tenham um problema de calendário aqui no Brasil. O Brasil ainda tem os melhores jogadores do mundo e esse é o fato, não estou falando porque trabalho aqui, é um fato, vocês ainda têm os melhores jogadores do mundo.

GF: Você veio da base do Liverpool para o São Paulo, que talvez tenha um dos melhores centros de formação do país. O que você achou de Cotia e do trabalho que é feito lá?

MB: Foi absolutamente incrível quando eu vi Cotia, um dos melhores centros do mundo, tanto nas acomodações e os dados dos jogadores que recebemos de Cotia é muito impressionante. Os componentes chaves do nosso time, Júnior, Luiz Araujo, Araruna, Shaylon, Lucas Fernandes, o time todo é feito desses jogadores, até o garoto que trouxemos de volta, o Thomaz. É muito importante para o clube, eu conheço os jogadores mais fortes no sub-20, sub-17, no sub-16 e no futuro isso é uma grande inspiração para que o Rogério traga mais deles para o time de cima.

GF: Como é o seu trabalho com o André Jardine? Vocês conversam bastante, ele te manda informações dos jovens?

MB: Sim, com certeza. Antes de eu chegar eu estudei muito o time sub-20 do São Paulo e já estava muito animado com o Junior Tavares, quando eu vim fazer uma visita em novembro e o Rogério também se animou. Ele tem sido uma revelação para nós, sem ele a gente teria um grande problema no lado esquerdo nesse começo de temporada. Eu acho muito importante que a gente continue olhando para os sub-20, pois eles são o futuro. Nós olhamos o trabalho do Jardine por lá e ele é um ótimo treinador, muito bem-sucedido, então nós temos muita sorte de contar com ele e nós buscamos dar toda a oportunidade para os seus jogadores. Nós temos jovens como Militão, Léo Natel, Caíque, Roni, esses vão ser os garotos que terão as próximas oportunidades.

GF: A primeira vez que te vi no São Paulo foi nas finais do Paulistão sub-20 e sub-17, como você se sente em relação a esses jogadores, acha que eles podem fazer parte dos planos?

MB: Eles só precisam de tempo para crescer, o staff acredita muito neles. Eles precisam que os fãs tenham paciência com eles, para que continuem trabalhando e se desenvolvendo em Cotia. Você tem meninos mais jovens como Weverson, Marquinhos Cipriano, Igor, a gente tem um monte de jogadores muito bons. É impossível que todos os atletas tenham chances de uma vez, mas cada um a seu tempo terá. Essa é a paixão do Rogério e uma das principais razões pela qual eu vim, eu acredito nisso e é isso o que eu faço.

GF: Eu estava em Cotia nessa época e conversei com os atletas e eles disseram que você e o Rogério deram treinos pra eles e que você passava situações de jogos, muito como nos seus livros. O que você tenta passar para esses jovens?

MB: Eu acredito que o mais importante é tornar o treinamento mais pessoal, individual. É sobre cada jogador, qual a sua identidade, no que ele é bom e então você foca o treino nisso para ajudar os jogadores. Eu acho nós temos um jeito muito dedicado de jogar, então primeiro o Rogério deixa bem claro para o staff como ele quer que o time jogue e então nós podemos treinar assertivamente os jogadores, porque é uma jornada e você tem que visualizar o final dela.

GF: Você diz que é uma jornada. Essa é uma jornada longa, um relacionamento duradouro no qual você acredita que pode trazer um novo conceito para o futebol brasileiro?

MB: No tamanho da história do São Paulo eu represento um período muito pequeno, então eu tento deixar o trabalho em um bom lugar. Eu acho que Cotia tem um trabalho fantástico e nós precisamos demonstrar confiança nos jogadores jovens, mostrar que eles podem ser o futuro, do contrário pra que ter Cotia? É o mesmo que sempre falei na Inglaterra, a categoria de base não é um acessório, ela é um lugar para desenvolver jovens atletas e os treinadores e auxiliares dos times principais têm que abrir as portas. Se você dá a um jogador a chance, como Júnior ou Luiz Araújo, todos os outros em Cotia ficam entusiasmados de que podem crescer no futuro, isso é muito importante. Os ídolos têm que mostrar o caminho, para que se dê chances aos garotos. Se você der chances, eles nunca vão te desapontar em esforço, você só precisa ser paciente com eles.

MB: Ei Gabriel, no futuro vamos tentar marcar uma conversa, a gente pode falar mais e com certeza vai ser muito proveitoso, mas no momento eu acho que sou o cara que está segurando o ônibus.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base.
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