Cinco pontos que o título da Taça BH expõe sobre Cotia e sua relação com o profissional

O São Paulo foi campeão da Taça BH e isso diz muito sobre Cotia e sobre a relação da base com o profissional no tricolor paulista. Destaco cinco pontos sobre a conquista.

1. Estamos diante de uma geração absurda de Cotia

Já não é segredo para muitos que a geração 00/01 do Brasil é algo especial, que pode se equivaler e até superar a geração 91/92, que revelou Neymar, Lucas, Coutinho, Casemiro, Danilo, Alex Sandro e tantos outros jogadores.

Foto de Thomas Santos - saopaulofc.net

Foto de Thomas Santos – saopaulofc.net

No entanto, o bicampeonato consecutivo da Taça BH mostra que o São Paulo terá uma participação gigantesca na formação dessa safra tão promissora. Com nomes como Helinho, Rodrigo Nestor, Weverson, Antony e claro, o mais precoce deles, Brenner, o time /00 do São Paulo é muito acima da média, tendo o Flamengo, de Vinicius Júnior, como principal rival.

No time /01 do São Paulo surgem outros nomes, como Lucas Sena, na lateral-direita, Lucas Fasson, zagueiro, além de Ed Carlos, Falcão, Vitinho, Paulinho, David Elias e Gustavo Maia. São todos jogadores absurdamente técnicos e cada um com uma característica importante. O que se viu nessa Taça BH é que não existe jogador dessa geração que a bola queime quando está no pé, todos tem uma técnica muito grande.

É raro ver uma geração com tantos jogadores que se mostram diferenciados dessa forma. Helinho foi provavelmente o melhor em campo na final, mostrou que sua perna esquerda pode fazer muitos estragos nas defesas adversárias. Rodrigo Nestor mostrou a liderança e a qualidade técnica de sempre e Brenner o seu faro de gol mais do que apurado.

Essa turma vai se juntar à Seleção Brasileira, nomes como Brenner, Nestor, Helinho e Weverson tem chances gigantescas de estarem no Mundial sub-17. Se a Seleção ainda puder contar com Vinicius Júnior e Paulinho, esse segundo do Vasco, será muito diferenciada.

2. “O São Paulo tem talento em Cotia para nunca mais precisar comprar jogador”.

A frase de Michael Beale, que corrobora uma profecia de Juvenal Juvêncio, quando São Paulo inaugurou o Centro de Formação de Atletas Laudo Natel, em Cotia, está cada vez mais na cara da torcida.

Com a exposição e transmissão dos campeonatos da base, a cada dia algumas contratações e decisões se tornam mais inexplicáveis. É claro, vai levar tempo até que a maior parte da torcida entenda que para um jogador dar certo é necessário muito mais do que jogar bem, é também preciso estar no lugar certo, na hora certa e receber boas oportunidades e por muito tempo o mantra de “Ah, mas não jogou nem em tal time ou tal empréstimo” ainda vai ressoar por aí, mas isso também será passageiro.

Muita gente vai pensar que é por conta dessa geração grandiosa que chega, mas já tivemos outras safras muito boas que foram mal utilizadas, como a /96 e a /94 e a cada geração que passar, se o aproveitamento do São Paulo em relação aos jogadores da base não melhorar, isso vai ficar mais claro.

Justificar contratações como Carlinhos, Bruno, Wesley, Cícero, enfim, jogadores que custam muito caro em salários e rendem muito pouco ou ainda, contratar jogadores duvidosos vindo de times pequenos, ficará cada vez mais difícil.

3. A 00/01 já é superior a multicampeã geração /96 e tem mais potencial para o sub-20

Hoje se vê que a 00/01 já tem mais potencial do que a geração /96, multicampeã pelo São Paulo, mas quem acompanhou bem a /96 antes do sub-20, viu que ali existia potencial para suprir muitas necessidades do São Paulo e infelizmente a transição não foi bem realizada.

A diferença entre essa 00/01 e a /96 está no meio-campo: é verdade que o meio da /96 era extremamente técnico, mas o poder ofensivo da 00/01 é muito superior, em especial porque Helinho e Rodrigo Nestor tem mais dinamismo e drible do que Hebling e Queiroz. Brenner mostra muito mais fome de bola do que talentoso Ewandro e tem mais faro de gol do que Joanderson. Junte a isso o fato de que Brenner, além de ser mais precoce, não é a única opção de ataque incisivo do São Paulo, como Ewandro foi na /96, podendo contar com as subidas de Antony, driblador e agressivo.

Nas laterais, Lucas Sena mostra mais capacidade defensiva do que Auro e Foguete e, apesar de Weverson passar por uma má fase, vale lembrar que a /96 não tinha lateral-esquerdo até as chegadas de Inácio e Tavares. Já na zaga, a /96 vinha um pouco melhor, mas Fasson mostra potencial gigantesco e ainda tem Miguel, na geração 2000 que vai muito bem também.

Quando chegarem no sub-20, ao contrário dos /96, os /00 não ficarão desamparados. Enquanto a geração /96 pegou uma lacuna de duas gerações muito fracas de Cotia (/95 e /97), a /00 tem exatamente o contrário: encontra uma talentosa geração /99 e será suprida por uma igualmente boa geração /01.

Enquanto quase nenhum jogador /95 conseguiu jogar com os /96 no sub-20, é improvável imaginar que o time /00 não tenha aí o auxílio de Marquinhos Cipriano, Gabriel Novaes, Igor, entre outros. O mesmo vale para a comparação entre /01 e /97. Se na /97 apenas Fernandes e Neres foram capazes (e foram protagonistas) de participar do time /96, a /01 vai atropelando em algumas posições: casos de Lucas Fasson, Lucas Sena e outros muito utilizados, como Paulinho, Vitinho e Ed Carlos. É provável que com subidas para o profissional que devem ocorrer no sub-20, essa /01 seja bem utilizada.

O que fez a diferença para que a /96 fosse tão vitoriosa no sub-20, por incrível que pareça, foi o jogador menos talentoso, Banguelê, um marcador implacável, mas sem muita técnica e a /00 e nem a /01 tem esse jogador, mas a /99 tem e com muito mais qualidade com a bola nos pés, casos de Luan e Walce.

4. Brenner não tem mais desafios no sub-17

Chega um momento na carreira do jogador de base em que atuar na sua categoria não lhe dá mais desafios e esse momento chegou muito cedo para Brenner.

Ele já havia mostrado seu potencial atuando entre os mais velhos no ano passado e em 2017 começou logo dando as cartas de como seria o ano. Foram 44 gols em 21 jogos, mais de dois gols por partida, marcou em todas as partidas sub-17/sub-18 que disputou, ninguém para o artilheiro da base tricolor.

Na Taça BH ele jogou apenas três partidas e foi o suficiente para manter sua média: marcou dois gols em cada uma delas. Foram dois contra o Fluminense, dois contra o Atlético-MG e dois contra o Flamengo, na final. Com seis gols em três jogos, se tornou artilheiro da competição. Mais uma pra conta.

O São Paulo tem três opções: manter ele no sub-17 e ver Brenner bater todos os recordes imagináveis da categoria, subir ele pro sub-20 e começar a dar novos desafios ou subir agora para o profissional e começar a usá-lo aos poucos, pelo menos de 20 a 25 minutos por jogo.

É verdade que a fase não é boa para o time profissional, a zona de rebaixamento incomoda e o São Paulo precisa de soluções imediatas. Talvez Brenner não seja uma solução imediata, talvez seja, é difícil prever. Em outros times, nomes 2000 já começam a aparecer, caso de Paulinho, no Vasco e Vinicius Júnior, no Flamengo e essa rivalidade pode ser sadia para Brenner evoluir.

Eu, pessoalmente, daria ao menos uns dois meses para o Brenner no sub-20 e na Copa Paulista e se a diferença dele para os demais seguir ou não diminuir muito, a ponto de ele pouco aparecer, seria o caso sim de arriscar uma sequência para ele no profissional.

5. Helinho tem potencial para ser craque e estamos falando de muito craque

Com a atual fase de Brenner e toda a moral que Rodrigo Nestor ganhou atuando entre os mais velhos, o meia Helinho pode ter ficado um pouco longe das vistas do torcedor são-paulino, mas o que ele fez na Taça BH foi coisa de gente grande.

Não é a primeira vez que Helinho destoa da média, ele sempre apareceu muito bem na geração e nessa Taça BH foi protagonista do São Paulo. A canhota é calibrada, ligeira e destruidora. É verdade que o Flamengo estava bem desfalcado, jogando com muitos atletas nascidos em 2001 e sem os principais nomes da 2000, como Vinicius Júnior e Lincoln, mas Helinho mostrou um futebol maravilhoso de se assistir.

Ficou fora da Seleção no Sul-Americano sub-17 por conta de uma lesão muscular, mas com esse desempenho na Taça BH, certamente cravou um lugar na lista final de Carlos Amadeu. Pode fazer as malas, porque merece muito ir para a Índia em outubro deste ano.

 

 

 

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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One Response to Cinco pontos que o título da Taça BH expõe sobre Cotia e sua relação com o profissional

  1. Jorge says:

    Excelente texto Gabriel.
    Acredito que a transição só será boa o suficiente quando tivermos um time no profissional com um pouco de qualidade que possa deixar que os muleques não sejam colocados na fogueira e tenham chance de jogar e irem mal em algumas partidas.
    Só não entendo porque temos paciência com o Bruno e não temos paciência com um garoto formado em cotia.

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