A carta que Usain Bolt nunca escreveu (e eu li mesmo assim)

***USAIN BOLT NUNCA ESCREVEU ESSA CARTA, MAS EU ADORARIA QUE TIVESSE ESCRITO. PORQUE FOI TUDO ISSO QUE LI, QUANDO O VI NA PISTA EM SUA ÚLTIMA PROVA***

– Olá, meu nome é Usain Bolt e eu sou um corredor, sou um velocista.

Se eu me apresentasse assim para você por volta de 2005 ou 2006, talvez a sua reação fosse com uma risada irônica e se perguntasse: “Esse cara é velocista e se chama Bolt, qual a chance disso?”.

É, parece coincidência, mas eu posso dizer e provar hoje, que eu tinha um destino traçado desde que nasci, na família em que nasci, no país em que nasci e com o nome que me foi dado. Tudo isso, em todos os momentos, sempre foi parte de uma missão.

E eu nunca me apresentei assim para você, talvez você só tenha tomado conhecimento de mim em 2008, na China. Você não viu minhas medalhas como juvenil, provavelmente nunca me imaginou no cenário mundial do atletismo e muito menos pensou o que alguns especialistas pensaram de mim, um sucessor de Michael Johnson, que ganhou quatro medalhas olímpicas. Não me viu quebrar todos os recordes imagináveis antes de atingir a maioridade. Não se culpe, a maior parte do mundo não viu nada disso.

Quando eu surgi para você, com o perdão do trocadilho com meu nome, fui um raio. Eu precisei de 9,69 segundos para te impressionar, na verdade um pouco mais, se você assistiu a qualificatória e olha que essa nem era minha prova mais forte. Com mais 19,30 segundos, eu te impressionei de novo e deixei minha marca no mundo. Te impressionei com a minha velocidade, te impressionei com a minha trotada solta e relaxada nos metros finais de uma prova histórica.

Desse momento em diante, muitos deixaram de me ver como Usain Bolt, aquele que receberia uma risada irônica. Os recordes vieram aos montes. Em Londres, outra Olimpíada e de novo eu ganhei tudo o que poderia, bati mais marcas e fiz o que ninguém havia feito. Já era o suficiente para muitos dizerem que eu não era humano, que eu era uma espécie de super-herói ou algo assim e eu passei a me ver assim também, eu mesmo falei que era uma lenda, o maior atleta vivo.

London 2017 IAAF World ChampionshipsUma terceira jornada olímpica foi um sonho, que acendeu quando falaram que com ela eu me tornaria imortal e eu corroborei. Definitivamente, ser imortal não é humano e já não me viam assim. Fui para o Rio de Janeiro e fui feliz, venci um dos ciclos olímpicos mais dolorosos da minha vida. Eu me lesionei, meu músculo sentiu, mas pouca gente viu, isso não aconteceu na prova que o mundo inteiro para pra assistir.

Quem acompanha o atletismo, colocou um ponto de interrogação sobre mim e eu desentortei ele, fiz dele um ponto de exclamação. Eu me tornei imortal ali.

Mas eu sempre soube que tinha uma missão. Sempre me perguntam: Por que a Jamaica faz tantos velocistas? E a minha resposta sempre foi o treino, o incentivo, a competição, que existe no meu país. Ninguém fez nada sozinho. Eu não fiz nada sozinho.

Eu falei que você não me viu quebrar recordes quando ainda era um adolescente. Só que você também não viu tudo o que eu passei para superar essas marcas. Você não me viu correndo descalço perto de casa. Vivendo uma rotina para poder correr desde criança. Não viu quando no meu primeiro mundial juvenil fiz minha melhor marca na vida e ainda assim não me classifiquei para a final dos 200m e muito menos viu quando me falaram para não correr os 100m nas Olimpíadas.

E ainda assim parou para ver minha última prova. Não era Olimpíada, era minha última prova e por isso o mundo parou. Parou pra ver aquele que não é humano correr pela última vez. E nessa última prova, justamente nela, restou pra mim a obrigação de mostrar para você que sim, eu sou humano e sou muito humano.

Estava tudo encaminhado para um pódio de despedida, mas meu corpo me pediu pra parar. Ele disse que não dava mais naquele momento. Cai, vi todos meus adversários passarem, um por um e os vi cruzarem a linha antes de mim. Não estou acostumado com isso. Você achou que iria me ver no pódio, onde só três podem chegar e me viu no chão, onde qualquer outro ser humano poderia estar. Passei minha vida tentando mostrar que era uma lenda e no meu último sprint te mostrei outra face.

E essa foi a minha primeira lição, para mim e para o mundo. Sempre fui, sempre serei humano, por mais que meu nome já esteja em um hall onde só aqueles que jamais serão esquecidos estão

A outra lição quem deu foram meus companheiros. Só com eles eu fui capaz de atravessar a linha de chegada. Ali estavam Omar McLeod,  Julian Forte e Yohan Blake. Esses três, ali, naquele momento, representaram muito mais pessoas do que eles imaginam. Mostraram algo que eu sempre soube e talvez nunca tenha expressado da melhor maneira: eu não cheguei a lugar algum sozinho. Se hoje atravessei essa linha de chegada por causa deles, na minha vida batalhei muito, mas muitas outras pessoas também fizeram parte, cada um com seu tamanho e importância, dessa minha história.

Você viu onde eu cheguei sendo humano e viu que não fiz isso sozinho. De todas as medalhas e recordes que ficaram com meu nome, espero que essa lição fique também e inspire novos raios por aí, chamem eles Bolt ou não.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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