Champions League joga na cara que futebol brasileiro está distante

Que na Europa, em especial na Inglaterra, existe um histórico de violência dentro e fora do estádio envolvendo as principais torcidas, não dá pra negar, mas que essas histórias todas estão cada vez mais no passado, também não.

Na primeira rodada da Uefa Champions League, Tottenham e Borussia Dortmund se enfrentaram no Wembley Stadium, um dos mais aguardados duelos do Grupo H, que também tem Real Madrid e APOEL. O resultado foi além do esperado, teve show em campo e também fora dele. Já dava para ver que seria ótimo durante todo o dia em Londres.

Torcedores do Borussia Dortmund no metrô

Torcedores do Borussia Dortmund no metrô

Os principais pontos turísticos da cidade já estavam um pouco amarelados, digamos assim. Por todos os cantos era possível encontrar torcedores do Borussia Dortmund, a gigantesca maioria veio de avião para Londres, mas alguns encararam as 6h de trem. No Palácio de Buckingham, na Tower Bridge, no Big Ben e até em bairros mais afastados, era fácil ver camisas de Marco Reus, Mário Götze e Aubameyang. Interessante, ninguém escondendo sua camisa por estar em território adversário.

Com todo esse clima rolando pela cidade, eu, Gabriel Fuhrmann, fui conferir a experiência de torcedor desse jogo. Hospedado em Newham, bairro suburbano de Londres, relativamente próximo do estádio do West Ham e de algumas das obras olímpicas de 2012, o primeiro desafio já era de início a ida para o estádio.

Espera, eu falei desafio? Desculpa, foi fácil até demais. Embora o estádio fosse realmente distante, quase 20 estações entre Canning Town e Wembley Park, o trajeto não poderia ter sido mais fácil. A linha Jubilee, que passa por Canning Town e Wembley, tem apenas alguns trens que vão até o estádio, mas não houve problema algum, bastou descer em outra estação e fazer uma baldeação para a Metropolitan. Nada de trens absurdamente lotados. Foi tudo muito fácil e o horário do jogo já estava próximo. Detalhe: em Londres, por mais que você ande muito de trem/metrô, existe um limite que pode ser cobrado no seu cartão por dia, que é de cerca de 8 libras, não precisa sofrer se precisar pegar muitos trens diferentes.

O lanche na porta do Wembley

O lanche na porta do Wembley

Chegando no estádio, muita gente, uma manada de pessoas caminhando pela saída do metrô e torcidas juntas. Torcedores do Borussia Dortmund e do Tottenham dividiam espaço nos vagões do metrô, nas ruas e nas filas para comer. Eu não poderia passar por essa experiência de torcedor sem comer um lanche de porta de estádio: 8 libras por um cheeseburger com fritas. Convertendo, cerca de R$ 40, claro que pesa no bolso do brasileiro, mas o torcedor londrino ganha em libra e o salário mínimo é de 7,50 libras/hora. Preço justo por um lanche bem servido, apesar de caro para os padrões dos fast-foods da cidade. Deu tempo de comer o lanche ouvindo a banda do Spurs, que fica na porta do estádio tocando as músicas oficiais do time.

Mesmo com mais de 60 mil pessoas no jogo, nada de filas quilométricas para entrar ou muitas pessoas do lado de fora com a bola rolando, tudo rápido e prático. Muitos funcionários orientando, o sistema das catracas é eficiente, lê os cartões de sócios dos torcedores, alguns cartões de crédito e outros ingressos avulsos. Depois, é só pegar a escada rolante até a sua seção, onde outro funcionário calmamente te encaminhará até seu assento. Mesmo que nunca tenha ido ao estádio Wembley, como era o meu caso, você não tem como se sentir perdido.

Dentro de campo teve golaço, teve Harry Kane, Eriksen, teve gol mal anulado do Borussia Dortmund, enfim, teve um verdadeiro jogaço de futebol. Fora, a torcida alemã dava show, cantava e batucava sem parar, independente do resultado da partida. Foram 90 minutos de uma pequena parcela da Muralha Amarela fazendo sua voz ser ouvida na Inglaterra. A torcida do Spurs é mais quieta, assiste ao jogo e aplaude praticamente tudo o que os seus jogadores fazem. De vez em quando eles soltam a voz, cantam alto suas músicas e a acústica do Wembley Stadium ajuda a deixar a festa mais bonita.

Torcedores saem juntos do estádio

Torcedores saem juntos do estádio

Na saída do estádio, ainda às 22h, torcedores do Spurs e do Borussia saíram praticamente juntos. Pararam nas mesmas barracas de comida e pegaram o mesmo metrô. Os torcedores ingleses estavam mais felizes, claro, mas discussão? Nenhuma. Estabelecimentos abertos para comer, desde rosquinhas, até pizza e hamburger, tudo isso literalmente na frente do estádio. Nessa saída, encontrei os primeiros camelôs que vi na noite toda, eles vendiam uma versão paralela do cachecol oficial do jogo. Na loja do Spurs, logo na saída do estádio, 12 libras, na mão deles, uma versão de menor qualidade, apenas 5 libras. Cambistas de ingresso? Esses só encontrei no centro da cidade.

Houve uma pequena parte em que pensei: “poxa, igual o Brasil”, mas errei feio. Foi no metrô, onde uma fila gigantesca havia se formado. Um verdadeiro mar de gente, misturado de amarelo e preto, cheio de torcedores do Spurs e do Borussia. Achei que ficaria pelo menos uma hora naquela fila, mas um pouco de organização e civilidade pode resolver tudo.

Com funcionários a cada 30 metros segurando uma placa com “Please Wait” (por favor aguarde) de um lado e  “Go!” (Vá/Siga) do outro, tudo funcionou muito bem. Em menos de dez minutos a filha era coisa do passado e eu já estava no metrô de volta pra casa, seguindo as mesmas 20 estações da ida e conversando com dois torcedores do Borussia, que ainda tinham um trem pra Alemanha pra pegar (mais seis horas nos trilhos).

O futebol sul-americano tem muita magia, tem muita coisa boa, mas também tem muito pra aprender com exemplos como esses dados pela Uefa Champions League.

 

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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