Um presidente pequenino queria navegar…

Um presidente pequenino queria navegar, tentava e tentava, mas só conseguia afundar.

Essa é uma história real, aconteceu com o time de um amigo meu, ou talvez, tenha sido realmente com o meu.

Ilustração de Amaro Junior -

Ilustração de Amaro Junior – (Amaro Desenheiro)

Era uma vez o oceano e era uma vez um barco, a combinação perfeita para quem quer viajar o mundo, principalmente se essa embarcação já fez a rota ao redor do planeta três vezes. Viajar é mais fácil pra quem tem o mapa.

Só que viajar também é difícil e muito mais difícil quando não se tem um comandante. Mais difícil ainda quando o comandante ou dono da embarcação é incapaz ou quando o seu principal desejo na vida não é chegar ao destino. Veja bem, se o maior desejo do comandante ou dono é outro, que não encaixa com chegar ao destino final, enquanto o barco tiver que ir pra frente, ele fará ir para trás. Se o objetivo é ficar na superfície, ele vai transformar em um submarino.

Foi isso que aconteceu com essa embarcação, que pensou em uma viagem de alguns anos, não planejou e deu ela por encerrada em poucos meses.

Pra começar essa história, preciso contar que a embarcação estava meio caída, precisando de reparos urgentes e esses reparos não eram fáceis ou rápidos. O presidente, Carlos, resolveu contratar um ex-marinheiro chamado Rogério, que há algum tempo, começando do posto mais baixo, como ajudante do limpador do banheiro, se tornou capitão de algumas das mais memoráveis viagens da maravilhosa história desse barco.

O grande problema é que, apesar de saber tudo sobre navegar nessas águas, como um dos tripulantes e muitas vezes como o principal dos tripulantes, Rogério nunca havia feito todos os reparos que uma embarcação precisava antes de ser colocada na água. Algumas vezes ele tinha feito pequenos consertos durante a viagem, mas nada além disso. Ele estava estudando para poder assumir esse posto, mas o desespero de Carlos, que temia perder seu cargo nessa viagem e a vaidade do próprio Rogério, fez com que ele aceitasse tamanha responsabilidade antes da hora.

Aos trancos e barrancos, esse barco chegou ao mar, mas com muitas falhas. Rogério tentou consertar, mas deixou alguns furos. Carlos, em vez de ajudar, fez mais furos e disse a todos os marinheiros que ali estavam, que se mantivessem ele por lá, faria mudanças, corrigiria  tudo e colocaria o barco na direção correta.

Ledo engano, ou Leco enganou, os marinheiros acreditaram. Uma pena. O que seria para corrigir o problema, na verdade só efetivou os erros já feitos pelo então presidente. Um dos mais enganados foi o próprio Rogério, que acreditou quando Carlos lhe deu respaldo para continuar seu trabalho e falou que ele não perderia mais marinheiros.

Não contei isso?

Vendo a embarcação cheia de furos com a qual Rogério tentava inutilmente navegar, o presidente Carlos pegou uma serra copo e começou a furar o barco todo. Para completar, pegou seus melhores marinheiros e mandou para outros navios, em troca de um dinheiro para consertar os buracos, que ele mesmo havia feito.

É claro que esse dinheiro não foi usado para isso, já é mais do que claro que essa embarcação sequer deixou a costa, está afundando.

Desesperado ao ver a embarcação afundando e com medo de ser jogado direto na água por todos, Carlos culpou Rogério. Só ele. Ele sozinho. Não contabilizou os diversos furos que  ele mesmo fez na embarcação e nem as promessas que fez para muitos dos tripulantes.

Dos erros efetivados por Carlos, está a contratação de Vinicius, um rapaz que nunca sequer havia entrado no mar, mas que recebeu um dos cargos mais altos no comando do barco.

Ele justificou esse cargo, muito bem remunerado, inclusive, dizendo que apesar de nunca ter entrado no mar, uma vez, quando era criança, ele havia pisado em uma poça de água. Ilustração perfeita da insanidade que estava ocorrendo dentro deste barco. Pode ser vertigem do mar. O sal, o Sol.

Sem sair do lugar e afundando cada vez mais rápido, o desespero chegou. Não havia salvação, era necessário um bote salva-vidas ou pelo menos coletes salva-vidas para todos. Foi então que Carlos buscou o que ele dizia ser o bote perfeito, para manter tudo vivo e na temporada seguinte tentar a viagem mais uma vez. Mais uma mentira. Na verdade, o que ele achou que era o salva-vidas, era uma âncora, que tinha até um nome gravado nela: Dorival.

Em um barco todo furado, que está afundando, colocar uma âncora pra dentro só faz ele afundar ainda mais rápido e vou te dizer, esse barco só não afundou ainda e atingiu o fundo do mar, porque um grupo de milhões de pessoas, que não ganham nada com o barco, mas são apaixonadas por sua história e suas viagens, tem feito de tudo para manter ele na superfície.

Lhe parece que tudo o que esse presidente fez foi surreal? Maluquice? Você está achando que toda essa viagem, na verdade é uma viagem de ácido? Espera, eu ainda não te contei a melhor parte, a mais inacreditável de todas.

Tenho certeza que você achou que o presidente afundaria junto com o barco. Ledo engano, ou Leco enganou, tanto faz.

Ele já está fora desse barco faz tempo, se é que um dia esteve dentro dele de verdade. Se o barco afundar, sabe quem vai estar dentro dele? As milhões de pessoas que estão mantendo ele na superfície.

*A ilustração perfeita para essa história, eu encontrei no flickr do Amaro Junior - Amaro Desenheiro

*Inspirado pelo questionamento do ouvinte da São Paulo Digital, Andrézinho, do Bom Retiro.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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