Há um ano conhecemos o futebol de um jeito que nunca imaginamos

Quem viveu o futebol em outras décadas, talvez já entendesse bem o sentimento que passou pelo mundo há um ano, quando toda a delegação da Chapecoense foi vítima de um desastre aéreo. Porém, uma nova geração só teve a percepção do tamanho desse esporte em relação a vida neste caso.

Screen Shot 2017-11-29 at 00.26.53Há um ano eu acordei bem cedo para uma reunião de trabalho no interior, mas não foi um dia comum. Não foi o som do celular que me despertou, foi minha mulher dizendo a seguinte frase: “o avião da Chapecoense caiu”. Choque instantâneo. Minha reação foi só dizer: “meu Deus, eles iam jogar a final”.

A final. O momento mais importante da vida de muitos daqueles atletas até aquele momento e talvez o momento mais importante de toda a carreira deles pra sempre, independente do acidente. Quem já cobriu ou já viveu o mínimo do ambiente de um clube, sabe o quanto uma decisão mexe com todos. De atleta a massagistas, de assessores de imprensa a setoristas. Todos acabam envolvidos e mesmo querendo ser isentos, acabam sentindo que aquela final é um pouco deles também.

A final nunca aconteceu. O final sim, trágico, como ninguém poderia imaginar. O dia que era pra ser de expectativa por um jogo, virou de lamentação e desespero por informações. Foi emocionante, mas não como queríamos que fosse. Teve a emoção que nenhum torcedor nunca imaginou sentir, quem dirá um familiar dos atletas, repórteres e outras pessoas presentes no voo.

Aquele dia tudo ficou fora do ar. O futebol é alegria e alegria não existia, não tinha bola que pudesse rolar naturalmente assim. E por isso, a bola realmente não rolou e ela nem queria mais rolar mesmo. O que seria uma batalha intensa em campo, se tornou o oposto fora dele. Pode não ter sido alegre como futebol, mas certamente teve mais amor do que caberia em qualquer estádio do mundo. Se tornou uma união por completo, de torcedores, de países, de pessoas ao redor do mundo.

E nessa hora até o mais fanático por futebol percebeu que o esporte é imenso, maravilhoso, mas a vida, ela é muito, mas muito maior e muito mais bela. E que o futebol faz parte e pode ser parte importante da vida, mas ele não é ela.

O Índio Condá foi o que ele sempre quis e deveria ser, cumpriu sua lenda. Se originalmente ele uniu tantas tribos indígenas em guerra por séculos, na sua versão moderna ele uniu um mundo cada vez mais dividido. Uniu colombianos e brasileiros, uniu torcidas que não conseguiam dividir nem um vagão de metrô. Uniu todos em um sentimento único.

Foram dias, semanas e meses, em que o mundo coube inteirinho em Chapecó e então entendemos porque o Índio Condá estava lá, porque ficou claro que ali sim havia espaço em coração para caber o mundo todo.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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