Raí acerta em cheio no discurso, resta a diretoria deixar acertar na prática

Quase não tenho palavras para expressar o quão certeiro foi o craque Raí no seu discurso de apresentação como novo executivo de futebol do São Paulo. Logo na primeira fala, na primeira pergunta, tocou no ponto mais importante e defasado do futebol brasileiro: o planejamento.

raiQuem me acompanha sabe que há muito tempo cobro que o planejamento e a filosofia de jogo devem ser próprias do clube e não da comissão técnica. Raí abriu sua gestão no futebol do São Paulo falando exatamente a mesma coisa, mais animador que isso, só se o São Paulo ainda por cima tivesse um ambiente favorável.

Embora pareça, não é tão simples aplicar na prática o que sonha Raí e deveriam sonhar todos os torcedores são-paulinos. A lógica é simples: o clube que tem o estilo e a filosofia de jogo definidos independente da comissão técnica, será sempre mais assertivo em tudo, inclusive na hora de contratar uma comissão técnica. O time que tem a filosofia ofensiva de jogo, que busca um futebol com peças móveis, nunca vai contratar o Bauza, por exemplo.

Isso independe da opinião pessoal dos dirigentes sobre o treinador ser bom ou ruim e Bauza é bom treinador, dentro da sua filosofia. Independe porque a diretoria só vai contratar um treinador que estiver de acordo com a mentalidade que já existe dentro do clube, que não vai mudar ao longo do ano por causa de um resultado ou outro. No fim, isso dá uma base sólida, que perpetua independente dos resultados, da comissão técnica e jogadores.

O que isso evita? Evita justamente o que tem acontecido nos últimos anos em grande parte dos clubes do Brasil, com contratações feitas com base no gosto pessoal, no achismo e no palpite. Evita que a cada três meses o clube comece um trabalho do zero ou até do negativo. Hoje a filosofia dos clubes é completamente mutável, vai de acordo com os resultados e isso faz com que nunca uma filosofia consiga atingir seu auge, tanto dentro como fora de campo.

– Temos um técnico ofensivo. O time joga bem ou está evoluindo. Não atingiu o resultado em quatro meses? Fora. Contrata então um técnico que é o total oposto desse técnico anterior, mas dá para ele um elenco que foi todo montado ou começava a ser montado para outro estilo de jogo. Não atingiu o resultado ou atingiu só por um curto período? Fora também. Que venha outro técnico com outra filosofia -.

Trabalhando dessa forma nunca há trabalho para ser avaliado. Não há parâmetros além dos resultados para serem analisados. E o resultado, ele pode acontecer ou não acontecer, mas vitórias nem sempre ditam a qualidade do trabalho.

Para atingir um resultado, muitas coisas estão envolvidas. Há claro o quesitos de qualidade técnica e tática, mas você vai encontrar jogos em que um time muito mais organizado, talentoso, acaba perdendo para um time muito inferior em todos os quesitos. Por que?

Ora, porque o futebol é multifatorial. Ter o melhor time e a melhor tática ou filosofia não é garantia de vitória sempre, certo dia, certo período, seu time pode não estar bem em algum outro ponto importante, como o fator emocional, desgaste físico e até a sorte entra na conta. No entanto, ter um trabalho sólido, é garantia de que você sabe onde tem que mexer para melhorar e que o período ruim, embora possa existir, é apenas um período e não a máxima da equipe.

Raí enxerga isso e enxerga que o São Paulo, ao menos nos últimos anos, tal qual muitos clubes brasileiros, vive exatamente o oposto. Tornou-se um clube que passa por períodos bons, como um vice-campeonato brasileiro ou uma semifinal de libertadores, mas eles são esporádicos. Em suma, se torna um clube fraco, que passa por um ou outro momento bom, em vez de um clube forte, que por ventura pode passar um período ruim.

Raí foi mais perfeito ainda ao citar sua época de jogador no São Paulo: fosse o time de Telê ou de Cilinho, o São Paulo tinha uma identidade própria perceptível e vencedora. Como era com Cilinho, essa identidade precisa ser sempre estendida para a base. Hoje o São Paulo vive um processo invertido, enquanto a base teve nos últimos três anos uma identidade muito clara e que venceu títulos em todas as categorias, o profissional caminhou em outra direção, passando por sete treinadores no mesmo período.

– O São Paulo precisa mesmo de uma identidade própria, Raí. Precisa ser um clube que pensa pra frente, um clube que busca um futebol ofensivo e bonito, um clube que promove as categorias de base e no pouco que você expôs sobre a sua possível filosofia no tricolor, ainda sem total conhecimento do ambiente que vai encontrar pela frente, você foi certeiro -.

Raí acertou em cheio em tudo o que falou, nos exemplos que citou e inclusive quando referendou o atual trabalho como uma perspectiva de futuro. Basta agora que Leco e sua trupe deixe Raí trabalhar, montar sua própria equipe e seu próprio trabalho. Não adianta fazer como o próprio Leco fez anteriormente e até as gestões anteriores fizeram, dando pitaco em tudo o que a nova gestão tenta montar, sem devido conhecimento de causa.

Raí está mais do que certo, o São Paulo precisa de identidade própria e se ela tende a ser uma identidade próxima a dele, que ótimo para o São Paulo.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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