Não há prêmio maior do que um simples aplauso do seu rival

Se você gosta de futebol, não tem jeito, invariavelmente aplaudiu ou ao menos ficou muito admirado com o que fez Cristiano Ronaldo nesta terça-feira. Um gol de bicicleta absurdo, além da perfeição do movimento, feito em um jogo decisivo, contra um adversário gigante.

Tudo no lance foi bonito, até a falha de comunicação entre um dos melhores zagueiros do mundo e um dos melhores goleiros de todos os tempos. Como pode até uma falha ser bonita? Simples, é só a bola chegar nos pés do português. O gol com a marca de Cristiano Ronaldo, não desistir, trabalhar e insistir.

29595552_2070836539796451_9096960987402126209_nUm toque pra trás que gerou a grande defesa de Buffon, a leitura de jogo para o deslocamento dentro da área. O deslocamento de quem simplesmente trabalhou para estar na posição exata, para o movimento perfeito. Um dos gols mais bonitos da história da Champions League.

Ah sim, além desse gol absurdo, Cristiano ainda marcou outro logo no início da partida e deu uma assistência para o terceiro gol, marcado pelo brasileiro Marcelo. Foi um golaço e foi mais, foi uma partidaça do craque português, com justiça aplaudido de pé pela sua obra de arte por praticamente todos os presentes no Juventus Stadium.

Entre torcedores brasileiros, a atitude em Turim gerou uma pequena polêmica. Alguns se revoltam com torcida que aplaude o adversário, outros tantos aplaudem a torcida que sabe reconhecer a grandeza do rival.

Quem não gosta esbraveja: “Odeio futebol moderno, futebol Nutella, não são torcedores de verdade”. É claro, nenhuma das afirmações é verdadeira. Aplaudir o adversário não é uma atitude do futebol moderno (pelo contrário, é uma atitude que na Europa acontece há muitas décadas) e muito menos faz de qualquer um menos torcedor.

Na Europa isso já aconteceu tantas vezes que chega a ser incontável. A torcida do Real Madrid, um dos maiores times do mundo, talvez o maior na atualidade, está entre as que mais protagonizou cenas do tipo. Cruyff, Maradona, Ronaldinho Gaúcho e Iniesta, todos aplaudidos no Santiago Bernabéu vestindo a camisa do Barcelona, maior rival do clube merengue.

Aliás, até a Juventus, vítima hoje, já teve seus dias de glória na casa espanhola. Há dez anos, Del Piero se consagrou em Madrid, fez dois gols e levou a Juve a uma vitória fora de casa contra o Real. Uma atuação de gala do craque italiano, com justiça aplaudido de pé por todos presentes no Santiago Bernabéu.

E não pense que na casa madridista só se aplaude em caso de uma grande partida, também se aplaude em demonstração de respeito, como aconteceu com Pirlo, também atuando pela Juve, Ryan Giggs, pelo Manchester United e Totti, pela Roma. Todos aplaudidos por uma torcida adversária, em uma clara demonstração de respeito pelo que fizeram no futebol.

Não é exclusividade de Madrid. Os brasileiros Ronaldo Fenômeno e Kaká já foram aplaudidos pelos torcedores do Manchester United também. Incontáveis jogadores que retornaram de lesões ou problemas de saúde graves já foram efusivamente aplaudidos por rivais ao entrarem em campo, se buscar bem, a lista de situações do tipo não caberia em um post. Não há sinal dignidade maior, do que reconhecer seu adversário como um igual, que veste outra camisa, mas é merecedor do seu respeito tanto como qualquer outra pessoa do mundo.

A verdade é que vale uma reflexão interessante. Se você vê com tanto asco um aplauso de respeito pelo que fez o seu adversário, será que a sua paixão é o futebol ou é a vitória? Você é mais movido por amar o jogo ou por vencer o jogo? Há em você mais amor ao seu time ou mais ódio aos seus rivais?

Na minha opinião, o aplauso do rival é o prêmio máximo que um jogador pode receber. É muito maior que qualquer bola ou chuteira de ouro, maior do que muitas taças distribuídas por aí. Não tem prêmio feito por jornalista, revista, treinadores ou confederação que se equipare ao prêmio dado pela torcida que teria todos os motivos do mundo para te odiar.

Fazer o torcedor adversário se render ao seu futebol é uma arte para poucos e o gol de Cristiano foi capaz disso. Foi exatamente aquele momento em que o torcedor parou atônito ao que tinha visto no gramado e pensou: “vou reclamar do que?”. Não foi a falha da defesa, não foi o árbitro que errou, não foi falta de vontade do meu time, foi simplesmente o futebol, em sua totalidade e praticado da melhor forma possível.

Maradona, Cruyff, Ronaldinho por diversas vezes, tanto jogando no Barcelona, como em clubes mexicanos, brasileiros. O respeito pelas obras de arte que ele sempre criou apareceu muitas vezes ao longo da carreira do Bruxo. Porque ele, assim como o holandês e o argentino citados, está na lista de jogadores que levam magia ao gramado e são eternizados com essa honra.

É fácil se render quando você tem jogadores desse quilate atuando. Aplaudir esses atletas citados não é nada além de respeito ao esporte. No Brasil não se tem a oportunidade de ver jogadores desse nível, há uma escassez de atletas acima da média jogando no país. Eles até surgem de vez em quando, mas são vendidos tão rápido, que não dá nem tempo do apaixonado por futebol se enamorar pelo que vê. Não surpreende que a última lembrança que tenho do tipo no território nacional tenha acontecido com Neymar.

Foi em um Cruzeiro 0 x 4 Santos, em que Neymar acabou com o jogo, fez três gols, deu uma assistência e foi aplaudido pela torcida cruzeirense após marcar o quarto gol santista. É claro, houve ali uma mistura entre o deboche de parte da torcida que gritou anteriormente “Timinho” para a própria equipe e o respeito pelo que tiveram a oportunidade de assistir.

E você nem sempre precisa bater palma, por exemplo como outro caso do Neymar, dessa vez contra o Internacional. Ele foi capaz de fazer o narrador Pedro Ernesto deixar de lado que narrava o jogo para torcedores gaúchos e simplesmente reverenciar o que havia presenciado. Simples, respeitoso e honesto com o que era visto. Não precisava revolta ou apontar falhas do Inter, simplesmente foi Neymar, mostrando genialidade no seu futebol.

Quando coisas assim acontecem, é o momento em que não deveria haver diferença entre o torcedor adversário e o admirador do futebol, afinal, que torcedor, além do amor pelo seu clube, não ama também o futebol?

Não digo que significa não amar o esporte ser contra o aplauso para um adversário, mas confesso que às vezes tenho medo que esse seja um sintoma de uma mentalidade mais nociva ao futebol brasileiro. Aquela mentalidade que pensa mais na vitória, do que no jogo. Uma mentalidade que só enxerga fracasso em quem não levanta uma taça e portanto não quer compreender tudo mais que envolve o futebol, que vai além do título. São centenas de times por aí e poucos troféus. O objetivo final é ser campeão, mas se esse é o único objetivo, estatisticamente é mais provável que você sinta muito mais frustração do que prazer com o jogo. Pelo que se observa dos times que mostram bom futebol, talvez não ter outra coisa além do título em mente, seja a pior forma de chegar aos títulos com maior frequência.

Pro torcedor, o futebol é paixão e tudo bem você sentir raiva por ver seu time perder, é normal e muito justo. Com certeza nenhum torcedor da Juventus estava feliz com o que aconteceu, mas a raiva não os impediu de mostrar respeito. Tudo bem se você não quer aplaudir e você não precisa querer aplaudir o seu rival por nada no mundo, também é normal e muito menos o aplauso é a única forma de mostrar que você respeita o seu adversário.

O problema é que talvez seja normal por aqui ser incapaz de mostrar o mínimo de reconhecimento pelo trabalho do outro, afinal, paira no ar uma doutrinação brasileira que diz que somos sempre nós que perdemos, nunca é o adversário que vence. Doutrina que é estampada na cara da nossa nação no futebol ou em outros esportes, até aqueles que nem sequer acompanhamos. Fenômeno percebido com mais clareza durante eventos como os Jogos Olímpicos, com suas manchetes quase sempre dizendo que o brasileiro perdeu. Não importa se ficou em segundo ou terceiro, se conquistou a melhor marca da vida, se superou as expectativas, não há conquistas de prata, bronze, superação ou reconhecimento pelo trabalho, se ele não foi ouro, ele perdeu, como se não houvessem outros tantos atletas também brigando pelas poucas medalhas, como se estar nas Olimpíadas não fosse uma conquista gigante para muitos esportes. Eu, inclusive, posso e devo ter caído diversas vezes nesse tipo de armadilha ao longo da vida.

A verdade sobre esse texto, é que não sou ninguém pra dizer o que é certo ou errado e por mais que possa parecer, não é isso que tentei fazer. Cada um sabe muito bem o que faz e tem todo o direito de não aplaudir um rival, achar que aplaudir o rival, mais do que respeito ao adversário, demonstra desrespeito ao próprio time. Discordo, mas compreendo quem possa ter isso em mente.

Minha proposta é que se você é incapaz de compreender, aceitar e não ofender outros por um gesto tão respeitoso como um aplauso vindo das arquibancadas, aliás, é capaz de achar que esse tipo de gesto não pertence às arquibancadas e nunca deveria ser proferido, talvez seja válido que você reflita um pouco sobre o que é esporte e o que é torcer.

Eu tento refletir muitas vezes e garanto, se você tiver boa vontade, vale a pena.

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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