A Islândia não nos mostra que amadorismo dá certo, mas sim que o profissionalismo é o caminho

Em tempos de redes sociais, onde qualquer um pode escrever o que quiser e será lido, há uma necessidade de se embelezar toda e qualquer história, seja por mera vaidade ou para justificar algo em que você acredite. No meio desse turbilhão, a história da Seleção da Islândia de futebol se tornou talvez a presa perfeita.

Não foram poucos os posts enaltecendo o fato de alguns jogadores terem carreiras paralelas ao futebol e até inventando coisas, como dizendo que os jogadores não têm tatuagens ou cabeleireiro pessoal, tentando criar uma antítese entre a Islândia e os superstars do futebol mundial. É o vício das pessoas, sempre tem que existir o certo e o errado, um tem que ser sempre o total oposto do outro e nem sempre é bem assim.

A história da Islândia no futebol já é maravilhosa por si só, não precisa de maquiagem ou qualquer embelezamento que não seja o que ela mesma já é. Essa história incrível não é uma história de amadores, ponto da briga mais imbecil já criada entre um suposto futebol raiz versus um suposto futebol Nutella. Não é sobre os patinhos feios, pobres coitados, que chegaram ao glória quase máxima de, não só disputar uma Copa do Mundo, mas arrancar um empate da tradicional Argentina, com direito a defesa de pênalti de um dos melhores jogadores da história. É a história de como planejamento e profissionalismo, mesmo que a longo prazo, sempre valem a pena.

Como um país que tem uma população menor do que o bairro do Grajaú, na periferia de São Paulo, conseguiu a proeza de disputar contra as melhores e mais tradicionais equipes de futebol do mundo? Como uma Seleção que em 2010 era a número 112 do ranking da Fifa, conseguiu chegar entre as 20 melhores do mundo em apenas oito anos?

Ao mesmo tempo que a explicação é simples, ela demanda muito trabalho duro, paciência e estudo. É preciso entender, primeiro, que a Islândia é um país onde reina a cultura de trabalhar até o final de qualquer coisa que você começar a fazer. Um islandês muito dificilmente deixará algo pela metade. Não dá pra dizer se isso vem da cultura pescadora do país ou do fato de ser um lugar tão frio que, ou você termina o que está fazendo ou não terá outra chance. O fato é que o trabalho duro é praticamente a primeira lei não escrita da Islândia.

Um país menos populoso, de menores dimensões e que vive em uma economia e um padrão social estável, tem mais facilidade para se planejar para novas conquistas e por isso planejamento é a segunda palavra-chave dessa história de sucesso. A informação para se tornar uma potência no futebol era clara: formar mais atletas de qualidade. Como fazer isso era a pergunta, que a Islândia respondeu com a formação de treinadores qualificados.

Se tornou obrigatório na Islândia ter licença da UEFA para ser um treinador, não só de futebol profissional, mas em qualquer divisão ou categoria. Isso porque até os treinadores sub-10 são obrigados a terem ao menos a licença B da UEFA e pelo menos ter cumprido metade do curso para treinar jogadores sub-8.

Talvez isso seja um choque, quando você compara com países europeus mais tradicionais como a Inglaterra, onde treinadores de categorias para crianças muitas vezes são pais de atletas que gostam de gritar e gostam de futebol ou mesmo comparando com a situação desses treinadores aqui no Brasil.

O que isso quer dizer no final das contas? Quer dizer que mesmo que você tenha cinco ou seis anos de idade, seu treinador será uma pessoa muito capacitada para desenvolver seu futebol dentro da sua faixa etária. Entre os clubes, é obrigatório que todos os treinadores tenham a formação da UEFA, em todas as categorias, do sub-8 ao profissional. Isso dá aos jovens um processo gradual e ao mesmo tempo uniforme de desenvolvimento futebolístico, não é de se estranhar a obediência e inteligência tática dos jogadores islandeses hoje em dia.

Então mesmo que o treinador até hoje ainda seja também um dentista em sua cidade natal, pode ter certeza que ele tem a maior graduação possível de treinador da UEFA para comandar a Seleção da Islândia e claro, aprendeu também com o estudioso Lars Lagerbäck, que não só ficou com a Seleção da Suécia por mais de 20 anos, entre sub-21, assistente e treinador da Seleção principal, como foi uma das principais peças no desenvolvimento do futebol islandês.

Soccer WCup 2018 Iceland KosovoA federação islandesa tem hoje registrados todos os pouco mais de 900 treinadores do país, que treinam equipes masculinas, femininas, jovens, amadoras e profissionais. Com isso, a KSI consegue controlar e oferecer cursos para o desenvolvimento de todos eles. A federação islandesa sabe nome, idade, formação, clube que treina, carreira, enfim, tudo sobre todos os seus treinadores e é a federação que mais oferece cursos de formação para treinadores no mundo. O resultado final é ter 100% dos seus treinadores licenciados pela UEFA, a gigantesca maioria com a licença B, pouco mais de 200 com a licença A e duas dezenas com a licença PRO, a mais alta possível.

Junto com a educação, vem a estrutura e nisso a Islândia cada vez mais é um país difícil de bater. Falando em futebol, campos cobertos e climatizados foram construídos estrategicamente próximos as escolas. Em 2002 haviam apenas cinco em todo o país e em 2009 já haviam 17, hoje o número já dobrou. Fora isso, diversos mini-campos também apareceram, mais de 150 em apenas dez anos. Nesses campos treinam as crianças, os adolescentes e os adultos. Uma interação única entre várias faixas etárias que buscam o mesmo sonho e todos treinados por técnicos formados no mais alto nível do futebol europeu.

Com esse trabalho, rapidamente a Islândia descobriu uma coisa que muitos ainda têm certa dificuldade de entender. O segredo da formação de atletas não é ter muitas opções e sim ter um trabalho sério e profissional.

Por exemplo Akranes, uma cidade com nove quilómetros de área e menos de dez mil habitantes, até 2009 já tinha formado 33 jogadores islandeses que jogaram futebol fora do país. Isso é o definidor de qualidade para a Islândia, quando seus jogadores jovens chamam a atenção do muito mais desenvolvido mercado de futebol dos seus vizinhos na Europa. Hoje, pouco mais de 80 atletas islandeses atuam profissionalmente em ligas estrangeiras, algo inimaginável há 20 anos.

Há claros várias explicações para que tantos jogadores jovens comecem a surgir em um país de população tão pequena, a estrutura e a formação de treinadores fazem parte dela. Também tem que se levar em conta que eles raramente competem por posições nos seus times com atletas estrangeiros, a pressão é muito menor quando um jogador jovem surge, a pré-temporada é enorme, cerca de sete meses, mas o principal, segundo dizem os países que recebem os jogadores islandeses, é a formação eficiente, que entrega jogadores prontos e capacitados.

Com muito planejamento e paciência, a Islândia provou que trabalho sério sempre vale a pena, investimentos estratégicos são sempre um acerto e que o imediatismo não leva muito longe. Foram quase 30 anos entre as ideias iniciais de se desenvolver o futebol na Islândia e a chegada na Copa do Mundo e ainda tem uma escada gigante para esse pequeno país percorrer.

Não é uma antítese completa do futebol brasileiro, mas mostra que talvez o Brasil esteja atrasado, assim como outros países. O que muitos países só enxergaram no final dos anos 2000, a Islândia já tinha percebido no início da década de 90 e o que muitos estão tentando fazer hoje, sobre profissionalismo e educação, eles já tinham terminado de fazer há dez anos.

Talvez a Islândia nunca chegue numa final, nunca atinja um título e isso para nós brasileiros, acostumados com vitórias, mesmo sem planejamento e com o dinheiro muito mal investido, pode parecer fracasso, mas para um país que há 20 anos nem sequer sonhava com isso, é um sucesso imenso.

 

 

About Gabriel Fuhrmann

Jornalista formado desde 2011, especializado em futebol de base. Repórter da São Paulo FC Digital
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